Em 2007, prestes a completar 30 anos, tive a notícia: “Você vai ser pai de uma meninA”. Como boa parte dos homens em todo mundo, com pitadas de morbidez estatística nos hombres latinos, estremeci. Não consegui disfarçar. Ao sair do “histórico” ultrassom já comecei a calcular: “como vai ser com o primeiro namorado?”, “e quando ela me pedir pro cara dormir em casa?”, “vou esfolar a cara do primeiro moleque que ousar tocar os lábios dela”...
Fiquei mal. Pensativo mesmo. Imaginei friamente que não conseguiria lidar com a situação – e que poderia me transformar em um assassino serial de pretendentes dela.
Mas aí chegou a Sofía, nos primeiros meses de 2008, e tudo foi mudando; desde os primeiros momentos em que a vi, ainda saindo da barriga, com os olhos bem abertos e a enorme sobrancelha herdada do pai, meu coração amoleceu. Aqueles pensamentos todos viraram fumaça; deram lugar a uma enorme paixão que nutro até hoje, dia a dia, tentando conhecê-la melhor. Aprendendo e ensinando.
Quem diria, poucos anos depois, que eu torceria para que meu segundo bebê fosse também uma menininha? – e, então, chegou a loirinha Bianca – e uma nova onda de aprendizagem.
Neste processo me pus a pensar: o que me fez cambiar tanto de opinião? De um medo verdadeiro de ser responsável pela vida de uma garota indefesa a torcedor do tipo roxo para que minha prole crescesse com mais uma mulher na família?
Juntando o conhecimento (ou melhor, a experiência) destes últimos anos, cheguei a algumas vantagens práticas em ser pai de menina(s), em detrimento de um projeto de machinho alpha:
#1 Intimidade: aquele velho dito de que “meninas são dos pais e meninos das mães” passou do nível “lenda urbana” para axioma em minha vida. Confesso que hoje entendo melhor esta relação, em que as garotas parecem se aproximar da figura paterna quase como uma referência de segurança, proteção. Um complemento para o desenvolvimento da psique delas. Não que eu imagine que teria uma má relação com um filho; apenas creio que não teria o grau de intimidade e complementariedade possível com uma menininha.
#2 Tranquilidade: usando uma boa dose de generalização, e por inúmeras experiências empíricas junto aos meus amigos e nas infindáveis festinhas infantis, concluo não-cientificamente que as meninas são mais tranquilas que os manos. Normalmente vejo os moleques subindo nas mesas, tocando onde não devem, se esfolando no chão. As meninas? Preocupadas em manter a tiara no lugar, pulando mas sem arrebentar a cabeça, dançando mas sem furar a calça na altura do joelho.
Obviamente, existem algumas desvantagens neste processo: eu mesmo terei, em breve, 03 processos de TPM em casa (que, oxalá, sejam todos na mesma semana), os pentes em casa (já) vivem cheios de cabelos enormes, a programação na TV nem de longe é unânime (é uma luta ver o jogo do time do coração, imaginem partida do campeonato francês). Enfim..
Mas optei em ver o copo meio-cheio nesta situação e dividir estas ideias com os demais filhos de Adão. E, como fui aprendendo seriamente a função de pai de meninas, não poderia deixar de demonstrar a doçura que, como apontei acima, aprendi com elas:
“Sofia e Bianca: papai decidiu escrever um pouco sobre nossa relação, sobre nossos aprendizados, ainda que de maneira nada talentosa, como forma de demonstrar o amor que nutro por vocês duas, minhas princesas.”
PS: acabo de ser tio pela primeira vez...de uma menina. Bem-vinda Giovanna!